segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Rodolfo Walsh e sua Operação Masacre

Buenos Aires tem uma coisa que eu adoro. Seja o dia que for, tem cultura por toda parte. João pode constatar isso. Graças à ultima Ñ, revista cultural do jornal Clarin, eu soube que a Biblioteca Nacional oferece esta semana três jornadas sobre Rodolfo Walsh, autor argentino, famoso pelo seu livro "Operación Masacre".

Só para dar um pouco de contexto aos brasileiros (99% dos leitores deste blog), Walsh foi e é um autor emblemático no pais, e forma parte da lista dos desaparecidos desde o 25 de março de 1977 (durante a última ditadura militar). E "Operación Masacre" (1957) é uma non-fiction novel escrita bem antes do termo ser estabelecido depois do Truman Capote e sua obra prima, "In cold blood" em 1965.

Um brevíssimo resumo:
A partir da frase "Há um fuzilado que vive", Rodolfo Walsh começou uma detalhísima investigação sobre os fuzilamentos clandestinos em 1956 num "basural" de José León Suarez, na provincia de Buenos Aires. Essa frase foi de um dos poucos civis que conseguiram escapar à morte, e motivou a Walsh a se dedicar completamente nesse caso. O resultado foi "Operación Masacre", publicada na revista "Mayoría" de maio a junho de 1957 por falta de uma editora. Já foi publicado em várias edições e goza de um grande prestígio na literatura argentina. Tem muito para dizer sobre este livro. Faça click aqui para saber.

Hoje às 19 horas foi a primeira jornada do ciclo na Bibloteca Nacional. O tema foi "Operación Masacre en el contexto de la literatura argentina". Começou 15 minutos tarde e um dos palestrantes faltou, mas o conteúdo foi muito interessante.

Eu gostei da observação sobre como Rodolfo Walsh fez um passo adiante na literatura policial na Argentina. Há dois fatores em "Operación Masacre" que dão conta disso. A proximidade (trata de um tema que acontece muito próximo a Buenos Aires) e a atualidade (é muito atual - os fuzilamentos ocorreram em 1956 e ele publicou a obra em 1957). Até então, as obras eram ambientadas em Nova Iorque e tratavam de temas passados. Nada tão próximo, tão real e tão intenso como o relato de Walsh.

Outro câmbio na sua literatura, junto com outros autores como Julio Cortázar, foi a de narrar sobre pessoas comuns. Aliás, o primeiro capítulo de "Operación Masacre" chama-se "Las personas". Walsh não faz referência ao conceito de personagens. A tendência era a de desenvolver personagens profundos e solitários (um exemplo é Ernesto Sábato).

Bom, tem muito para falar sobre esta obra e da sua repercução. Nem mencionei ao outro palestrante que fez mais ênfase nos recursos narrativos de Walsh, também muito interessante. Prefiro parar aqui e continuo amanhã com a outras jornadas.

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Nota: a maioria dos links levam a páginas de Wikipedia caso vocês quiserem saber mais sobre o contexto ou da obra que esteve falando.

2 comentários:

daisy carvalho disse...

O tema me interessa muito, depois do Brasil a Argentina é que me inspira saber de fatos históricos principalmente envolvendo ditaduras militares. "Evita", o musical me emociona até hoje quando revejo.
Parabéns pela matéria Cecília, vou acompanhar.
Beijos querida!

Cecilia Arbolave disse...

A última ditadura argentina foi terrível. E a diferença do que se diz sobre o brasileiro que sempre esquece, tem muita gente aqui que lembra e fica no passado. É um tema que dá para falar muito...

Eu recomendo bastante a obra de Walsh, vale a pena. Talvez escreva mais sobre as jornadas aqui no blog...

Eu não vi o musical de "Evita"... Na verdade, eu não sou muito fã da imagem mítica que se criou dela.


Beijos,