terça-feira, 30 de outubro de 2007

Blog, intolerância e poder

*Ensaio que escrevi sobre blogs para a faculdade...

A absolvição de Renan Calheiros causou indignação generalizada. Durante a votação, dois filiados do PSOL estenderam uma faixa com os dizeres "Fora Renan" no gramado do Congresso. Com a absolvição consolidada, 150 eleitores foram para a Avenida Paulista, palco tradicional das manifestações públicas. Morno, para dizer o mínimo.

Simultaneamente, o mundo virtual explodia com reações iradas. Comunidades do Orkut decretaram o fim da dignidade brasileira. Blogs escreveram sem meias palavras ou adjetivos politicamente corretos. A união fez com que o maior sítio da internet, o Google, passasse a apontar a página do Senado Federal ao se buscar por "vergonha nacional".

Para chegar a este resultado, mais efetivo e eloqüente do que os senadores oposicionistas se esgoelando na tribuna, bastou um blog ter a idéia de criar um link "vergonha nacional" apontando para o endereço www.senado.gov.br . Pediu a adesão de outro, que ganhou a adesão de outro e outro e outro. Pronto. A corrente fez com que o algoritmo por trás do maior buscador da rede desse ganho de causa para a opinião pública.

Esta foi só uma amostra da crescente força dos blogs. O Grupo Estado acusou o golpe. A última campanha publicitária do conglomerado de comunicação, realizada pela agência Talent, mostra um personagem que não sai de casa sem ver um determinado blog. Corte, o filme prossegue em um laboratório, onde um macaco dá os famosos comandos Ctrl + C, Ctrl + V por algumas bananas dados por cientistas pasmos com o aprendizado do primata. O silogismo foi montado na base da pouca credibilidade dos blogs - que podem ser escritos por animais sob regime pavloviano -, status supostamente contrário do diário centenário. Logo, acessar o Estadão.com.br é uma boa. Novamente, os blogueiros se manifestaram e execraram o jornal. Na abertura de uma reunião de conciliação das mídias, um editor dá a mão à palmatória e declara que o Estadão “ama os blogueiros”. Não foi um nocaute, mas pode se dizer que os blogs ganharam essa por pontos.

Os jornais em geral parecem desbussolados com as tecnologias que se popularizam nos três grandes atentados terroristas do século. Na queda das torres gêmeas, os sítios noticiosos ganharam força. Nas explosões do metrô de Madri, as mensagens SMS de celulares alertaram a população. As bombas no metrô londrino mostraram o poder dos blogs. Os grandes jornais foram forçados a publicar fotos dos sobreviventes blogueiros que lá estavam munidos de celulares com câmera fotográfica (ou seria câmera fotográfica com celular?).

Desde a invenção da imprensa, as tecnologias eram muito bem absorvidas pelas redações - é inimaginável uma redação sem e-mail hoje em dia, por exemplo. Os blogs parecem ter caído mal para as corporações de mídia tradicional.

O sítio Estadão.com.br tenta gerir uma série de blogs feitos por jornalistas. Uma passeada por eles demonstra a falta do jogo de cintura dos diplomados e supostamente autorizados a darem a informação pelo público. Alguns deles mantém peridiocidade e tamanho padrão nos textos. Raramente usam um link. Sem contar que mantém aquela reação distante dos leitores, típica de quem está protegido na caixa-forte das redações, sem se dar ao trabalho de responder comentários ou reações de outros blogs. Na visão dos velhos profissionais de redação, blogs são jornais impressos em telas de LCD; uma extensão do colunismo do jornal impresso.

Às vezes, uma entrada de um blog – conhecido também como post - se resume a uma foto, um vídeo, uma palavra ou um texto longo. O que for mais adequado. Não há regras de extensão ou de linguagem. Nem editor ou pauteiro. É o que der na telha.

Para fazer tudo isso é necessário ter noção de foto, vídeo, hipertexto, design. Repórteres acostumados a escrever e deixar a equipe fazer todo o resto têm vida curta na blogosfera.

É como se o destino colocasse uma ironia finíssima diante dos jornalistas. Eles entram na faculdade querendo fazer arte. Deparam com uma série de regras, realidade do mercado e padronização. Revoltam-se. Adaptam-se. Agora chegam os blogueiros que dão o ok que eles queriam antes de se decepcionar e as reações são pouco amistosas. Este ensaio, por exemplo, tem 5.857 caracteres. Está dentro dos limites impostos de 4.000 a 8.000 toques.

O conflito entre blogs e mídia tradicional parte da falsa premissa que um deve combater o outro. Cada um veste a farda de acordo com o seu meio e deixa de enxergar que um tem muito a dizer ao outro.

Outra leitura

Em contrapartida, é injusto colocar os blogueiros como os novos arautos da justiça e informação. O mesmo caso do Estadão permite outra leitura. Por mais que a propaganda fosse claramente humorística, a reação foi muito drástica ao passar para o outro lado do balcão. Estão se achando acima da crítica? É absolutamente verossímil a comparação jocosa - a maioria dos blogs copia, cola e, o pior, não dá o crédito. São mais bem papagaios do que macacos.

A blogosfera ainda engatinha, está na fase pós-catarse. Ainda é novidade ter voz ativa no universo da comunicação de massa em condição próxima da igualdade com os grandes meios. No boom de cerca de três anos atrás, os blogs ainda eram sinônimos de diários pessoais abertos aqui no Brasil. Esta característica espantou muitos leitores. Ao menor sinal de site com layout pré-montado, já mudava para outro mais confiável. Com o tempo, o público escolherá quais são os confiáveis e quais não são. No começo, o caos é normal e saudável - surgirão ainda muitas barrigas e episódios como o do falso Steve Jobs.

A fase da descoberta da blogosfera ainda deixa marcas. Muitos galgam as escadas do estrelato com o despejo diário de comentários em outros blogs. A etiqueta virtual manda que ao se receber um comentário, convém retribuir com outro. E assim, um compra o reconhecimento alheio. Relação promíscua e indecorosa - uma vergonha virtual.



Um comentário:

Luis Hipolito disse...

Tudo bem? Eu postei um link prá essa matéria em meu blog e citei a fonte. Sou blogueiro há mais de um ano, embora meu blog não seja de opinião. Posto links para sites e blogs ou então reproduzo artigos de outros sites em meu blog. Aceito todas as sugestões dos amigos blogueiros, pois acho que o mais importante de um blog não é ser conhecido, mas sim ter conteúdo. As pessoas só frequentam quem tem conteúdo. E isso é um grande desafio para todos nós. Eu assino o Curitibocas e sei que este blog é muito comentado na blogosfera brasileira, tanto que o Page Rank daqui é 4. O meu era 3 caiu prá 2. Eu acho que fui penalizado pelo Google por causa da troca de links(embora eu já tenha retirado isso do blog). Eu gostei desse artigo que publicaram aqui. Estou sempre acompanhando os blogs para descobrir novidades. Um abraço e sucesso!