
Em meio à histórica fusão do Unibanco e Itaú (que eu chamo de Unibú), recebi minha revista piauí. Finalmente entendi como a publicação, que investe em reportagens pesadas ao estilo New Yorker, conseguiu sobreviver no injusto mercado editorial brasileiro. Senti-me o último a entender a piada: a publicação, que é do filho do dono do Unibanco, tem seis páginas de anúncios de instituições financeiras (cinco de bancos e uma da consultora financeira PricewaterhouseCoopers).
Apenas quatro anúncios de página inteira não são de bancos, sendo que dois são da Globosat - um do canal GNT e outro do Universal. Globosat que é controlada pelo Globo S.A., que por sua vez vende suas cotas mais caras em seu veículo de ponta, a Tv Globo, ao Itaú. Em 4 de novembro, a capa do jornal O Globo, outro meio da Globo S.A., colocou um quadro com as vantagens da fusão. Não havia menção de desvantagens.
Nunca escondi minha admiração pela piauí. Era meu principal argumento em discussões sobre o investimento em qualidade para atrair leitores. Comentei no mês passado com alguns amigos que li uma das (se não a) melhores reportagens feitas no país: O Caseiro, sobre a história de Francenildo dos Santos Costa, personagem-chave da queda do ministro Antônio Palloci. A reportagem é assinada, justamente, por João Moreira Salles, publisher da revista e filho de Walter Moreira Salles, o fundador do Unibanco. Com o falecimento de Walter em 2001, o banco hoje é comandado por Pedro, irmão de João.
Abro a piauí deste mês. Página dois e três estão tomadas por um anúncio do Itaú. Contracapa é do banco Real. Concorrentes? Se considerarmos que o sistema bancário brasileiro é composto basicamente por duas instituições estatais (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), duas privadas nacionais (Bradesco e, agora, Unibú) e duas privadas extrangeiras (HSBC e Santander) com tarifas, serviços e atendimentos muito próximos uns dos outros, o leitor me permite concluir que estão todas mancomunadas entre si.
Outro fato: o público-alvo da revista não é o de gente que mexe com grana. Os anúncios da Globosat e de livros faté tem sua razão de ser, porém a publicidade desses bancos faria mais sentido em periódicos como Exame, Você S.A., Valor Econômico, entre outros. Ou seja, o maior exemplo de publicação de qualidade e independente do Brasil só parece ter sido realizado em razão do DNA do seu publisher.
De imediato, vem a memória uma questão editorial da revista. Lembro de um perfil altamente favorável ao banqueiro Daniel Dantas, alguns meses antes dele ter sido preso pela Polícia Federal. Era estranho, mas agora, faz sentido. Sinto aquela sensação chata de ser o último a entender a piada quando todos já se esbaldaram com gargalhadas.
Para completar a desilusão, responda rápido: qual o principal investimento de marketing cultural feito pelo Unibanco? Cinema, claro. Com João e Walter Salles, ambos cineastas, não podia ser diferente. Assim, fica fácil. São símbolos (ou, porque não, heróis) da cultura brasileira dúbios a partir de hoje, no meu ponto de vista.
Aqui em Curitiba o HSBC e a Caixa tem teatros. Não surpreenderá se os chefes das instituições tiverem parentes dramaturgos ou atores.